BOLA: Quando chegou a Belém, você lamentou o fato de não ter nenhum time paraense na série B, diferente da época em que você treinou a Tuna, em 1997. Na sua avaliação, o futebol paraense regrediu?
COMELLI: Se formos analisar, sim. Não há nenhum time sequer na série B. Eu acho que não houve uma evolução neste período, até mesmo em relação à estrutura, como por exemplo, alojamento, centro de treinamento. Remo e Paysandu pararam no tempo. Isso tem que ser diferente pela tradição das duas equipes, pela força da torcida, pelos bons jogadores que há em Belém. Remo e Paysandu deveriam ter uma estrutura de base melhor. Muitos jogadores saem muito cedo daqui. Então, tem que ter uma estrutura para segurar esses garotos, mas não houve isso. É preciso repensar para que se possa fazer um centro de treinamento. Com isso, é possível fazer jogadores nas categorias de base para que eles possam permanecer por aqui, com menor custo. E se um dia eles fossem vendidos, os clubes ainda teriam um retorno financeiro.
BOLA: Em 2008 e no ano passado você treinou o Bahia, que conseguiu voltar à primeira divisão com um time cheio de jogadores da base. Houve uma cobrança muito grande para contratar jogadores de fora?
COMELLI: Fiz um ótimo trabalho, principalmente em 2008, mas não fomos campeões do estadual devido ao regulamento. Perdemos o título por um gol, apesar de termos maior pontuação. Disputei quatro clássicos, ganhei três. A situação do Bahia era muito parecida com a que vive o Remo: um clube sem dinheiro e sem retorno financeiro. Então, eu acabei escalando muitos jogadores da base. A torcida não aceitava, tinha uma pressão muito grande sobre os jogadores mais novos. Mas nós os colocamos para jogar, eles se firmaram na equipe, foram valorizados e hoje aí está o resultado, o Bahia voltou.
BOLA: Até que ponto a base local pode ajudar a reerguer o Remo? Neste momento delicado não seria mais viável investir na experiência?
COMELLI: Temos que trabalhar dentro da realidade do clube. Não podemos sair do patamar financeiro estabelecido. É melhor contratarmos um time dentro das condições do que trazer um monte de jogador e não conseguir pagar. A gente tem que trabalhar, a solução é essa. Semana que vem eu já começo a observar a base. Vou realizar um treino coletivo para analisar cada um dos jogadores.
BOLA: E em relação às contratações? Como está o andamento do processo?
COMELLI: Queremos mais uns cinco jogadores: goleiro, zagueiro, volante, meia e atacante. Essas cinco peças serão as prioridades.
BOLA: Então, a priori, o Remo deve trazer cinco jogadores de fora?
COMELLI: Deve vir mais. Nós só temos quatro jogadores. Se utilizarmos pelo menos cinco jogadores regionais, totalizam nove, somados a mais cinco ou seis da base. Então, deve vir uns 10 jogadores de fora. Será uma mescla, o time vai ser formado por 50% de jogadores daqui e 50% de fora.
BOLA: Como você avalia o torneio que o Remo irá disputar no Suriname?
COMELLI: Temos que fazer uma pré-temporada já em dezembro. É importante fazer uma boa preparação física, técnica e tática. Vai ser bom realizar partidas antes do Parazão, contra boas equipes. Pode ser que nós encontremos um bom jogador de lá, que seja interessante trazer para jogar aqui.
BOLA: Como vai ser o seu trabalho em conjunto com a diretoria de futebol? O Comelli aceita sugestões direcionadas ao time?
COMELLI: O André Chita (auxiliar técnico) e o Armando Bracalli (superintendente de futebol) são duas pessoas experientes. O Bracalli vai somar muito junto à comissão técnica, vai ser a pessoa de ligação entre nós e a diretoria. Logicamente a decisão final vai ser do treinador e tem que ser assim, mas você tem que confiar na sua comissão técnica, por isso eu acho importante essa união. Estarei como treinador no dia a dia, mas às vezes tem um jogador que está se destacando no treinamento e que pode passar despercebido. Então tem que ter uma junção da comissão técnica, porque algumas decisões nós vamos tomar em conjunto.
BOLA: Qual vai ser o maior desafio?
COMELLI: Montar uma equipe sem dinheiro, igual como eu fiz no Bahia. É duro fazer o time andar. Aqui é a mesma situação, vou ter grandes dificuldades, mas o torcedor do Remo pode esperar muito trabalho.
Diário do Pará